segunda-feira, novembro 17, 2008

Sobre os portugueses no estrangeiro

Ah, os portugueses no estrangeiro, essa odisseia. Ponha-se dois homens oriundos da mesma terra beirã a partilhar vizinhança em Lisboa e a única coisa que se lhes conseguirá arrancar da garganta durante anos a fio é um “bom dia” ladrado à queima-roupa, com maus modos e contrariedade.

Mas ponha-se um portista gelatinoso e bairrista e um lisboeta frequentador do Lux e da Cinemateca num mesmo resort turístico no estrangeiro e eles tornam-se instantaneamente amigos. Parece magia. No estrangeiro, os portugueses atraem-se como magnetos com o cio. Toda a gente quer dizer de onde veio, para onde vai e quais os efeitos da gastronomia local nas respectivas tripas. Em destinos tropicais “tudo incluído” o “Macaco” seria amigo do “Barbas”, o Vasco Pulido Valente leria a obra completa do Miguel Sousa Tavares enquanto lhe afagava a nuca e o capuchinho vermelho e o lobo mau abririam em parceria um lar de geriatria. Nos resorts os portugueses são todos comparsas, filhos do Rectângulo, descendentes directos do Henriques, o conquistador.

Sucede que estive durante a semana passada num desses resorts. Logo no avião vinham ataviadas duas moças que passo a descrever: bota branca de cano alto (com salto agulha metalizado e pedraria incrustada, pois claro), microsaias, tops de cetim, extensões no cabelo, piercings à descrição, decotes generosos, tatuagens à vontade e, meus amigos, uma manicure francesa que faria a Florence Griffith-Joyner parecer uma mulher-a-dias com unhas ratadas.

[Já agora, num aparte, existe para estas pessoas um nome “marca-produto” que não fui eu que inventei e que, admito, pode até ser ligeiramente cruel, mas que é suficientemente acertado - e, vá, divertido – para podermos aqui prescindir dele: estas moças eram umas “super badalhocas”. SB’s, para os amigos. E para que não se diga que isto é coisa de machistas pudicos e mulheres enjeitadas, esclareça-se que o termo também existe no masculino. São os SB’s. Bom, mas dizíamos então que chegam as SB’s carregadas de malas ao resort.]

Nessa noite, pedindo nós a misericordiosa caipirinha de arranque das festividades, abeiram-se três jovens do balcão, batem com o punho no estaminé e gritam ao barman, em voz alta e galhofeira, que “a seguir a estas duas caipirinhas dê-lhes mais duas que pagamos nós”. Nós rimo-nos mas fugimos antes que se nos pudessem ancorar ao pescoço e começar a tratar por colegas. Mas isso somos nós, que tivemos cagufa e vergonha. Perdemos um serão divertido, seguramente, mas conservámos balanço e intestinos. Às vezes a vida é feita destes dilemas que de certeza já atormentariam Platão na Antiguidade grega se nessa altura houvesse resorts.

Bom, mas o que importa aqui reter é que no dia seguinte de manhã já as duas SB’s se deitavam nas mesmas espreguiçadeiras dos três mancebos, em arriscadas construções em altura; já os jovens casais se metiam com os desacasalados e já as tias do bronze confraternizavam com patriotas, um dos quais cometeu a façanha de levar para uma ex-colónia uma t-shirt em que se lia “Ex-combatentes da Guiné – regimento de artilharia”.

4 comentários:

PiC disse...

Essa t-shirt dizia mesmo isso?!?

Su disse...

¿Estuviste de viaje? Cuenta, cuenta.

Anónimo disse...

Tomei a liberdade de ler em voz alta este post no meu trabalho. É de ir às lágrimas!! Ganda Susa!!
Bj,
Joana R.

Anónimo disse...

um retrato genial do nosso rectângulo!